
O mês de julho é dedicado à conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço, ressaltando a importância do diagnóstico precoce e dos avanços nas opções de tratamento para esses tipos de tumor. Recentemente, um estudo publicado no International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics trouxe novidades significativas na área da radioterapia. O estudo, denominado HYPNO e classificado como fase 3, demonstrou que um protocolo de tratamento com 20 sessões obteve resultados equivalentes ao modelo tradicional de 33 sessões em pacientes com câncer de cabeça e pescoço em estágio localmente avançado.
Entendendo o Estudo HYPNO
A pesquisa envolveu 792 pacientes de 12 centros em 10 países de média e baixa renda, incluindo o Brasil, que teve uma participação significativa através do Hospital de Amor, localizado em Barretos (SP), que incluiu 148 pacientes, representando cerca de 19% da amostra total. O radio-oncologista Alexandre Arthur Jacinto, da instituição, foi o único pesquisador brasileiro a integrar a lista de autores do estudo. Os pacientes foram acompanhados por aproximadamente três anos e meio, durante os quais foram observadas taxas semelhantes de controle local da doença, sobrevida global e ocorrência de efeitos colaterais graves entre os dois grupos de tratamento.
Impacto das Resultados
De acordo com Jacinto, os resultados são especialmente relevantes para países que enfrentam limitações no acesso a tratamentos oncológicos. “A redução em cerca de 40% no número de sessões não só diminui o tempo total de tratamento, mas também proporciona maior comodidade aos pacientes e pode aumentar a capacidade de atendimento dos serviços de radioterapia, especialmente em sistemas de saúde com infraestrutura restrita”, afirma.
A Importância da Radioterapia
A radioterapia é uma das principais modalidades utilizadas no tratamento do câncer, com cerca de 60% dos pacientes oncológicos necessitando desse tratamento em algum momento de sua jornada, seja isoladamente ou em combinação com outras abordagens, como cirurgia e quimioterapia. Para tumores localizados em áreas como boca, língua, garganta, faringe e laringe, a radioterapia desempenha um papel crucial no controle da doença e na preservação de funções essenciais, como fala, mastigação, deglutição e respiração.
O estudo HYPNO demonstrou que é possível reduzir o número de sessões de radioterapia sem comprometer a eficácia do tratamento ou aumentar a toxicidade, uma descoberta de grande relevância para países de renda média e baixa, onde o acesso à radioterapia ainda é um desafio significativo.
Avanços Tecnológicos na Radioterapia
Entre as tecnologias mais avançadas empregadas na radioterapia está a Radioterapia de Intensidade Modulada (IMRT), que permite moldar os feixes de radiação de acordo com o formato do tumor. Isso possibilita que doses mais altas sejam direcionadas à área afetada, enquanto as estruturas saudáveis ao redor recebem uma menor exposição à radiação. Apesar de tais inovações, o acesso à radioterapia continua sendo um desafio em várias regiões do Brasil, com muitos pacientes sendo obrigados a viajar longas distâncias para receber tratamento.
Tipos Comuns de Cânceres de Cabeça e Pescoço
Os cânceres de cabeça e pescoço englobam um grupo de tumores que podem surgir em diversas partes, como boca, garganta, nariz e pescoço. Embora afetem diferentes regiões, muitos compartilham fatores de risco significativos, como o tabagismo e o consumo excessivo de álcool. Nos últimos anos, a infecção pelo HPV também se tornou um fator relevante, especialmente em tumores de orofaringe. Os tipos mais comuns de cânceres nesse grupo incluem:
- Cavidade oral: língua, gengiva, céu da boca, assoalho da boca, bochechas e lábios
- Faringe: nasofaringe, orofaringe e hipofaringe
- Laringe: região das cordas vocais
- Tireoide
- Seios paranasais: cavidades ao redor do nariz e olhos
- Glândulas salivares: parótidas, submandibulares e sublinguais
- Nariz e cavidade nasal
Desafios no Diagnóstico Precoce
Segundo o radio-oncologista Wilson de Almeida Jr, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), a detecção precoce dos cânceres de cabeça e pescoço é um dos principais desafios enfrentados. “Muitos pacientes apresentam sinais e sintomas iniciais que são frequentemente confundidos com condições benignas, atrasando o diagnóstico. Além disso, não existe um método de rastreamento estabelecido para a população em geral”, alerta.
Portanto, consultas regulares com médicos, dentistas e estomatologistas são fundamentais para a identificação precoce de alterações suspeitas. Sinais como feridas na boca que não cicatrizam por mais de duas semanas, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor de garganta prolongada, sangramentos inexplicáveis ou caroços no pescoço devem ser investigados. Quanto mais cedo a doença for identificada, maiores serão as chances de um tratamento bem-sucedido e menores os impactos na qualidade de vida do paciente.
Referência: International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics.
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