
O Crescente Desafio do Câncer no Brasil e a Necessidade de Radioterapia Sustentável
As novas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) trazem à tona uma realidade alarmante sobre o aumento dos casos de câncer no Brasil. Nos próximos três anos, entre 2026 e 2028, espera-se que aproximadamente 781 mil novos casos sejam diagnosticados anualmente, representando um crescimento de 11% em relação ao triênio anterior, que previa cerca de 704 mil novos casos por ano.
Em resposta a esse cenário, a Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) enfatiza a urgência de ampliar o acesso à radioterapia dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, a entidade alerta que qualquer expansão deve estar atrelada a um planejamento técnico cuidadoso, uma organização estratégica robusta e, sobretudo, à sustentabilidade econômica do setor.
Desafios Financeiros da Radioterapia no SUS
Atualmente, os serviços de radioterapia no SUS enfrentam um reembolso que cobre apenas cerca de 50% do custo real dos tratamentos. Essa situação compromete a manutenção, modernização e a ampliação da oferta de serviços. De acordo com levantamento da SBRT baseado em dados do DATASUS, entre 2023 e 2025, foram realizados cerca de 470 mil procedimentos de radioterapia pelo SUS. Esses números não apenas refletem a capacidade instalada, mas também evidenciam os gargalos de acesso, especialmente nas fases anteriores ao tratamento.
A Disparidade entre Incidência e Demanda Real
A incidência estimada de câncer não deve ser confundida com a demanda real por radioterapia, já que uma parte significativa dos pacientes não recebe diagnóstico ou encaminhamento para tratamento, particularmente no sistema público. A SBRT tem enfatizado que a expansão da radioterapia não pode ser fundamentada apenas em dados de incidência bruta.
O relatório RT 2030, elaborado pela SBRT, já havia indicado que, mesmo antes das novas previsões do INCA, o Brasil enfrentava um déficit estrutural em sua capacidade instalada. A nação contava com aproximadamente 409 equipamentos de radioterapia em operação no SUS, frente a uma necessidade mínima estimada de 513, resultando em uma lacuna de cerca de 20%.
Desigualdades no Acesso ao Diagnóstico e Tratamento
A SBRT alerta que a proporção de 75% dos pacientes oncológicos que dependem exclusivamente do SUS e a estimativa de que cerca de 60% necessitam de radioterapia durante o tratamento devem ser analisadas à luz das desigualdades no acesso ao diagnóstico. O acesso à detecção precoce e à confirmação diagnóstica é significativamente mais amplo na saúde suplementar em comparação com o SUS, o que distorce projeções que não consideram os gargalos estruturais que impedem que muitos pacientes recebam o tratamento necessário.
O Papel do Governo e Medidas Recentes
Nos últimos meses, o Ministério da Saúde anunciou diversas iniciativas para aumentar o acesso à radioterapia no SUS. Essas medidas incluem ações voltadas para capacitação profissional, modernização tecnológica e incentivos à expansão dos serviços. Em outubro do ano passado, foram anunciados investimentos de mais de R$ 156 milhões para cobrir despesas como transporte, alimentação e hospedagem de pacientes em tratamento, além de um investimento global estimado de R$ 907 milhões por ano.
O presidente da SBRT, Wilson José de Almeida Jr., reconhece a mobilização do governo, mas ressalta a importância de critérios técnicos claros, previsibilidade e sustentabilidade nas iniciativas. Ele enfatiza que fortalecer a radioterapia no SUS é fundamental, mas que isso deve ser feito com base em dados técnicos sólidos, evitando a implementação de modelos excessivamente complexos que não ampliem o acesso real.
Entraves Estruturais e Desigualdade Regional
O programa PER-SUS, destinado à expansão e implantação de novos serviços de radioterapia, enfrenta dificuldades significativas para cumprir seus objetivos. Após aproximadamente dez anos de execução, o programa entregou apenas 50% das soluções previstas, sem resolver o principal gargalo do setor: a defasagem histórica no financiamento dos procedimentos. A SBRT alerta que, sem enfrentar o problema do subfinanciamento, qualquer expansão da radioterapia será limitada e insustentável.
Além disso, o relatório RT 2030 revela desigualdades regionais persistentes no acesso à radioterapia. Embora o Sudeste concentre os maiores déficits em números absolutos, as regiões Norte e Centro-Oeste enfrentam déficits proporcionais mais elevados, refletindo falhas históricas na distribuição de recursos e infraestrutura.
Conclusão: Necessidade de Ação Integrada
Ampliar o acesso à radioterapia requer a correção de distorções regionais, o fortalecimento da rede assistencial e a adoção de critérios técnicos transparentes. Sem essas medidas, o aumento da incidência de câncer continuará a pressionar um sistema que já opera em seus limites, comprometendo a saúde e o bem-estar de milhares de pacientes em todo o Brasil.
Referências: Instituto Nacional de Câncer (INCA), Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), DATASUS.
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