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Avanços no Tratamento da Tuberculose com Nanopartículas de Ferro
Um estudo recente realizado pelo Laboratório de Pesquisas em Tuberculose da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (FCFAr – Unesp), no campus de Araraquara, revelou que um composto à base de ferro encapsulado em nanopartículas lipídicas foi capaz de eliminar completamente a tuberculose em pulmões de camundongos após 30 dias de tratamento. Este resultado, publicado na revista ACS Omega e apoiado pela FAPESP, abre novas possibilidades para o desenvolvimento de terapias mais curtas, menos tóxicas e mais eficazes contra a tuberculose, que é considerada uma das principais causas de morte devido a infecções bacterianas no mundo.
Desafios no Tratamento da Tuberculose
A tuberculose, embora conhecida há séculos e com tratamento disponível, continua a ser um desafio significativo para a saúde pública. O tratamento padrão exige, em geral, um período mínimo de seis meses de uso diário de pelo menos quatro antibióticos. Em casos de resistência, esse tempo pode se estender por até dois anos, o que torna a adesão ao tratamento uma tarefa difícil e contribui para o abandono e falhas terapêuticas.
Fernando Rogério Pavan, orientador do estudo e coordenador da área de Pesquisa de Fármacos contra a Tuberculose da Rede-TB, destaca que “a doença é curável, mas o tratamento é longo e pesado. O paciente precisa tomar vários antibióticos diariamente, o que pode causar efeitos colaterais e afetar órgãos como rins e fígado”. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a letalidade da tuberculose sem tratamento pode atingir 50%. Contudo, quando o tratamento é seguido corretamente, cerca de 85% dos pacientes conseguem se curar.
A Situação da Tuberculose no Brasil
O cenário epidemiológico no Brasil é preocupante. Em 2024, o Ministério da Saúde registrou 84.308 novos casos de tuberculose e 6.025 mortes em 2023, o maior número em mais de duas décadas. Mesmo com tratamento gratuito disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a adesão ao tratamento permanece desafiadora, especialmente em populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua ou com dependência de álcool. Pavan ressalta que “doentes frequentemente interrompem o uso dos antibióticos, levando à resistência bacteriana e criando um ciclo perigoso de transmissão”.
Inovações na Pesquisa de Tratamentos
O grupo de pesquisa liderado por Pavan investiga possíveis moléculas para o tratamento da tuberculose há cerca de 20 anos. Recentemente, sob a orientação da doutoranda Fernanda Manaia Demarqui, foi proposta a investigação da ferroína (FEP), um composto conhecido desde a década de 1950 e tradicionalmente utilizado em sínteses químicas. A pesquisa baseou-se no reposicionamento de fármacos, testando substâncias já conhecidas para novos usos terapêuticos.
Nos testes laboratoriais, a FEP demonstrou forte ação contra o bacilo da tuberculose, além de potencializar a eficácia de medicamentos já utilizados, como rifampicina e pretomanida. Os pesquisadores também conseguiram desvendar o mecanismo de ação da FEP, que atua inibindo a síntese da parede celular do bacilo, levando a alterações significativas na morfologia da bactéria.
Encapsulamento em Nanopartículas Lipídicas
Devido à instabilidade da FEP, os pesquisadores encapsularam o composto em nanopartículas lipídicas (NLS@FEP), que atuam como uma “embalagem” para liberação controlada. Essa abordagem melhorou a estabilidade do composto e prolongou seu tempo de ação no organismo. Segundo Pavan, “essa cápsula protege a substância e permite que a liberação seja gradativa, mantendo o composto ativo por mais tempo. É uma formulação simples, feita com colesterol e fosfatidilcolina, de baixo custo e fácil produção”.
Resultados Promissores em Testes Animais
Os testes foram realizados em camundongos infectados com Mycobacterium tuberculosis, divididos em grupos que receberam tratamentos convencionais e outros que foram tratados com o composto inovador. Após 30 dias, foi observada a eliminação completa da infecção pulmonar em ambos os grupos tratados com FEP, tanto livre quanto encapsulado, superando o desempenho do antibiótico isoniazida, um dos padrões do SUS. “Os resultados foram surpreendentes, pois esperávamos apenas uma redução da carga bacteriana, mas não encontramos nenhum bacilo nos pulmões dos camundongos tratados com o composto”, relata Pavan.
Próximos Passos na Pesquisa
Apesar dos resultados animadores, o caminho para a aplicação clínica ainda é longo. Será necessário realizar estudos adicionais sobre toxicidade, farmacocinética e ensaios mais rigorosos, que incluam modelos de tuberculose resistente e infecções crônicas. A ausência de patente para o composto pode acelerar seu desenvolvimento industrial, facilitando o acesso ao medicamento a custos reduzidos, especialmente para o setor público.
Se novos estudos confirmarem a eficácia e segurança em humanos, a expectativa é que essa nova abordagem possa revolucionar o tratamento da tuberculose, possibilitando terapias mais curtas, com menos efeitos adversos e maior adesão dos pacientes, o que ajudaria a mitigar a resistência bacteriana e o impacto da doença na população.
Referências
As informações foram compiladas a partir de dados da FAPESP e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
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