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Conceito de caquexia e sua relação com a transformação digital empresarial

Entenda por que a caquexia é uma condição tratável – e não um destino inevitável – e como identificar seus fenótipos para intervir de forma precoce.

O que é a caquexia?

A caquexia é uma síndrome metabólica complexa frequentemente associada a doenças crônicas e agudas. Muitas vezes, esta condição é subestimada na prática clínica, sendo confundida com um simples emagrecimento ou encarada como um sinal inevitável de terminalidade. Contudo, novas diretrizes elaboradas pelo Grupo de Interesse Especial (SIG) da ESPEN sobre caquexia-anorexia em doenças crônicas de desgaste oferecem uma nova perspectiva, propondo um entendimento mais dinâmico e orientado ao tratamento.

Caquexia e desnutrição relacionada à doença

O documento do SIG parte de uma premissa fundamental: a desnutrição relacionada à doença (DRD) e a caquexia podem ser considerados sinônimos, refletindo uma compreensão patofisiológica comum. Essa unificação é centrada na presença de inflamação sistêmica, catabolismo aumentado, redução da ingestão alimentar e alterações na composição corporal. O diagnóstico de DRD é baseado em critérios estabelecidos pelo framework GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), que incluem:

  • Pelo menos 1 critério etiológico, como redução da ingestão alimentar ou inflamação
  • Pelo menos 1 critério fenotípico, como perda de peso, baixo IMC ou redução de massa muscular

Um avanço recente é que a presença de doença aguda ou crônica, infecção ou lesão associada à atividade inflamatória pode preencher o critério de inflamação sem necessidade de confirmação laboratorial.

Fenótipos da caquexia

Um dos aspectos centrais do novo documento é a necessidade de caracterizar os fenótipos da caquexia para personalizar as intervenções nutricionais e metabólicas. A apresentação da caquexia varia de paciente para paciente, influenciada pela doença de base, idade, sexo, composição corporal e grau de resistência à insulina. Os fenótipos podem ser descritos em função da doença de base e da composição corporal.

Os autores ressaltam que os fenótipos são dinâmicos e podem evoluir ao longo do tempo, conforme a progressão da doença ou a resposta ao tratamento. Na trajetória típica de desnutrição, a perda de tecido adiposo geralmente ocorre nas fases iniciais, seguida pela redução da massa muscular e, posteriormente, pela queda do IMC. Portanto, reconhecer em qual estágio o paciente se encontra é crucial para definir a estratégia de tratamento mais adequada.

O papel da inflamação na resposta ao tratamento nutricional

A inflamação desempenha um papel fundamental na eficácia das intervenções nutricionais em pacientes com caquexia, mas não é o único fator determinante. Pesquisas indicam que pacientes com altas concentrações de proteína C-reativa (PCR) tendem a responder menos favoravelmente à terapia nutricional. No entanto, essa relação não é uma regra absoluta. Quando a inflamação é controlada ou reduzida, é possível recuperar a capacidade anabólica do organismo.

Além disso, mesmo em condições de inflamação aguda, como queimaduras extensas ou sepse, intervenções nutricionais personalizadas podem trazer benefícios significativos. Novas abordagens diagnósticas, como as metabolômicas, podem ajudar a identificar e caracterizar respostas inflamatórias específicas em pacientes com caquexia, aumentando a precisão diagnóstica e orientando tratamentos mais individualizados no futuro.

Caquexia não é sinônimo de terminalidade

Um equívoco comum é associar a caquexia à fase terminal de uma doença. O SIG contesta essa visão, afirmando que a caquexia pode ocorrer em qualquer fase de uma doença crônica ou aguda e é, pelo menos em parte, reversível. Evidências de pacientes com câncer, doenças renais crônicas, DPOC e insuficiência cardíaca congestiva demonstram que intervenções nutricionais adequadas podem melhorar tanto o estado nutricional quanto o prognóstico.

As diretrizes reconhecem que, nos últimos dias e semanas de vida, a terapia nutricional tem pouca indicação, pois raramente resulta em benefícios funcionais ou de conforto. Confundir essas situações pode levar à omissão de tratamento em pacientes que poderiam se beneficiar ou à intervenção desnecessária em pacientes em fase terminal.

Barreiras e soluções possíveis

Existem diversos obstáculos que impedem o diagnóstico e manejo adequado da caquexia. Uma pesquisa internacional revelou que mais de 50% dos pacientes afirmaram que seus médicos não verificaram problemas nutricionais durante o tratamento, e quase metade sentiu que a perda de peso involuntária não era considerada importante pelos profissionais de saúde. Entre os profissionais de saúde, um levantamento mostrou que 48% esperavam uma perda de peso de 15% antes de iniciar qualquer intervenção nutricional, um limite claramente tardio.

Para enfrentar esses desafios, o SIG recomenda o desenvolvimento de programas de treinamento em atenção primária, a inclusão da educação nutricional nos currículos médicos e o fortalecimento dos serviços comunitários de nutrição e dietética. Uma abordagem em que o manejo nutricional ocorre em paralelo ao tratamento da doença de base é proposta como uma estratégia eficaz, especialmente na oncologia.

Conclusão

O documento do SIG-ESPEN enfatiza que a caquexia é uma condição dinâmica, heterogênea e tratável, não um destino inevitável. Caracterizar seu fenótipo, quantificar o grau de inflamação e intervir de forma precoce e personalizada são pilares de uma abordagem clínica que pode mudar desfechos. O desafio atual é disseminar esse conhecimento para além dos especialistas em nutrição clínica, alcançando todos os profissionais que cuidam de pacientes com doenças crônicas.

Referência: Molfino A, Imbimbo G, Rothenberg E… Phenotype profiling of disease-related malnutrition with inflammation: Document elaborated by the ESPEN special interest group (SIG) ‘‘cachexia-anorexia in chronic wasting diseases’’. Clinical Nutrition, 2026; 59.


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