
Uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu revelou uma conexão preocupante entre a saúde bucal e a doença renal crônica (DRC), sugerindo que problemas dentários e de gengiva podem aumentar o risco de desenvolvimento dessa condição grave. A DRC é caracterizada pela perda progressiva e irreversível da capacidade funcional dos rins, afetando cerca de 10% da população, o que equivale a aproximadamente 20 milhões de brasileiros.
Relação entre saúde bucal e doença renal crônica
Os pesquisadores analisaram dados de indivíduos que relataram ter recebido um diagnóstico médico de DRC e compararam essas informações com a autoavaliação da saúde bucal dos participantes. Os resultados foram surpreendentes: aqueles que consideravam sua saúde bucal regular apresentaram uma probabilidade 1,63 vezes maior de desenvolver a doença em comparação com aqueles que a avaliavam como boa. Para aqueles que classificavam sua saúde bucal como ruim, o risco aumentou para 2,02 vezes.
Esses achados mantiveram-se consistentes mesmo após a consideração de outras variáveis, como idade, sexo, etnia, hipertensão arterial e diabetes. Os resultados foram publicados na revista BMC Public Health, contribuindo para o entendimento das implicações da saúde bucal na saúde geral.
Impacto da perda dentária e dificuldades alimentares
A pesquisa também destacou a relação entre a perda de dentes e a DRC. Indivíduos que relataram perda dental, tanto na arcada superior quanto na inferior, mostraram um aumento de 30% na probabilidade de desenvolver a doença renal crônica. Além disso, a dificuldade em se alimentar devido a problemas dentários foi associada a um risco duplicado de DRC em comparação com aqueles que não enfrentaram tais dificuldades.
Por outro lado, a frequência de escovação dos dentes apresentou uma relação inversa. Aqueles que escovavam os dentes três vezes ao dia tinham até 66% menos probabilidade de sofrer de doença renal crônica. Este dado ressalta a importância da higiene bucal para a saúde renal, embora o estudo não estabeleça uma relação causal definitiva entre as condições.
A necessidade de mais pesquisas
Os pesquisadores destacam que, apesar dos resultados significativos, ainda são necessários mais estudos para confirmar a relação de causa e efeito entre problemas bucais e a DRC. A medicina já reconhece a ligação entre a periodontite — uma inflamação dos tecidos ao redor dos dentes — e a doença renal crônica, mas as direções exatas dessa interação ainda precisam ser esclarecidas.
Acesso aos cuidados odontológicos no Brasil
Outro ponto levantado pela pesquisa diz respeito ao acesso aos cuidados odontológicos no Brasil. Os dados revelaram que uma parte significativa da população não realiza acompanhamento odontológico regular. Entre os entrevistados, 49,4% afirmaram ter visitado um dentista no último ano, enquanto 42,8% não iam ao dentista há mais de um ano e 7,7% nunca haviam consultado um dentista. Além disso, apenas 22,6% dos que buscaram atendimento utilizaram serviços públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Fatores de risco para a doença renal crônica
A doença renal crônica frequentemente não apresenta sintomas nas fases iniciais, o que torna crucial a identificação de fatores de risco. A pressão alta e o diabetes são os principais fatores associados ao desenvolvimento da DRC. No estudo, 28,2% dos participantes relataram ter pressão alta, o que representa cerca de 19,6 milhões de pessoas. O diabetes foi mencionado por 9,4% dos entrevistados, equivalente a 6,3 milhões de brasileiros. Aqueles que possuem essas condições devem monitorar regularmente a saúde dos rins, e a dosagem de creatinina na urina é um dos exames recomendados para verificar o funcionamento renal.
Este estudo faz parte do doutorado de Lilian de Oliveira Silva Macêdo e utilizou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, reunindo informações de 279.382 brasileiros.
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