Um em Cada Quatro Internados por Covid Tem Doença Renal

Impacto da COVID-19 na Saúde Renal: Estudo Revela Consequências a Longo Prazo

Um estudo recente realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revelou que cerca de um em cada quatro pacientes que foram internados devido à COVID-19 apresenta sinais de disfunção renal mesmo após a alta hospitalar. Essa pesquisa, considerada a mais abrangente na América Latina sobre o assunto, acompanhou 665 pacientes por até 11 meses após a recuperação.

Os resultados, publicados na revista Kidney International Reports, mostram que a disfunção renal tardia é um problema significativo, afetando a qualidade de vida dos sobreviventes. A avaliação da função renal foi feita utilizando dois critérios baseados na Taxa de Filtração Glomerular Estimada (TFGe), que é calculada a partir dos níveis de creatinina no sangue. O primeiro critério identificou uma diminuição de 25% ou mais na TFGe em relação ao momento da alta, enquanto o segundo considerou taxas abaixo de 60 ml/min/1,73 m². Os dados revelaram que 16% e 27% dos pacientes apresentaram essas alterações, respectivamente.

Características dos Pacientes Estudados

A amostra estudada consistiu principalmente de pacientes hospitalizados com quadros moderados a graves de COVID-19, durante a primeira onda da pandemia, entre março e agosto de 2020. A média de idade dos participantes era de 56 anos, com uma predominância de homens (54%). Mais de 40% dos pacientes tinham obesidade e 7,5% já apresentavam problemas renais pré-existentes, excluindo a doença renal crônica.

Os pesquisadores, liderados por Heitor S. Ribeiro, alertam para a necessidade de acompanhamento contínuo para aqueles que desenvolveram disfunção renal tardia após a COVID-19. Isso pode incluir ajustes na medicação, modificações no estilo de vida e visitas mais frequentes a especialistas, como nefrologistas e cardiologistas. Segundo Ribeiro, “um paciente que sobrevive a uma hospitalização crítica e desenvolve essa condição passa a apresentar sintomas como anemia, fadiga e distúrbios do sono, o que indiretamente afeta sua qualidade de vida e disposição para atividades diárias”.

Injúria Renal Aguda e suas Implicações

A injúria renal aguda (IRA) é uma das complicações mais prevalentes associadas à COVID-19, caracterizando-se pela perda súbita da função renal. No estudo, quase 80% dos participantes apresentaram este quadro, um número significativamente superior aos 30% citados em estudos anteriores. A pesquisa analisou dois tipos de IRA: a comunitária (IRA-C), que ocorre antes da hospitalização, e a adquirida no hospital (IRA-H). Os resultados mostraram que 35% dos pacientes tiveram IRA-C, enquanto 43% apresentaram IRA-H. Curiosamente, apenas a IRA-C demonstrou associação com a disfunção renal tardia.

Os pesquisadores sugerem que a lesão renal adquirida no hospital tende a ser melhor gerenciada, resultando em menos impactos a longo prazo. A hipótese é de que, com a vacinação, o cenário de lesões renais poderia melhorar nas ondas pandêmicas subsequentes, embora a IRA-C continue a ser uma preocupação significativa.

COVID Longa e Seu Efeito na Saúde Renal

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de seis em cada 100 pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 desenvolvem a COVID longa, que se caracteriza por sintomas persistentes por pelo menos três meses após a infecção inicial. Dada a escassez de pesquisas sobre o impacto da COVID longa na saúde renal, a equipe da FMUSP revisou 37 artigos que abrangem uma amostra de 1,3 milhão de pessoas. A análise revelou que a maioria dos estudos sobre COVID longa renal se concentra em países europeus e asiáticos, com uma notável falta de dados provenientes de regiões como a África e o Oriente Médio.

Os pesquisadores alertam que os sistemas de saúde do Sul Global podem estar negligenciando os efeitos da COVID longa, especialmente em relação à saúde renal. Ribeiro enfatiza que “nossa coorte pode oferecer uma imagem mais precisa do impacto da COVID-19 nas pessoas, contribuindo para um melhor cuidado e acompanhamento dessa população vulnerável”.

Considerações Finais

A COVID-19 não afeta apenas a saúde imediata dos indivíduos, mas também pode resultar em consequências a longo prazo, como a disfunção renal. A importância de um monitoramento contínuo e de cuidados adequados é essencial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes que sobreviveram à doença. Pesquisas contínuas são necessárias para entender melhor os efeitos da COVID-19 na saúde renal e para desenvolver estratégias de intervenção efetivas.


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